1. Este Blog

A minha maior realização neste fim/início de ano (2019/2020) foi criar o blog sobre o Rubem Alves.

Criar um blog sobre e para o Rubem Alves é o meu jeito de mantê-lo vivo como teólogo sério, filósofo sério, e educador sério, que foi, e como meu amigo querido do coração (o maior, ao lado de Aharon Sapsezian, que também era amigo dele). Rubem Alves não foi apenas um acadêmico alternativo, ou apenas um escritor de obras de literatura infantil, que são magníficas, mas que foram escritas por força das circunstâncias, não como expressão de sua essência pessoal. Não foi apenas um palestrante genial que levantava a galera, e que a fazia rir ou se emocionar, ao seu bel-prazer.

A paixão do Rubem Alves era a liberdade. Sua paixão era um mundo sem gaiolas, reais ou do pensamento, um mundo sem dogmas e, por conseguinte, sem dogmatismos, um mundo em que, não havendo dogmatismos, a intolerância é improvável, um mundo em que podemos voar para onde o espírito nos leva, literal ou metaforicamente, sem que um comissário qualquer nos bloqueie o caminho, pedindo que mostremos nosso passaporte e nosso visto, ou o nosso laissez passer. O mundo do Rubem Alves é um mundo em que podemos voar para onde queremos, sem precisar provar que temos direito de voar para lá, porque esse direito é tacitamente reconhecido e por todos afirmado…

O que eu admiro no Rubem, acima de tudo, é esse jeito marrento que ele tinha. Se eu quero me considerar protestante, ou presbiteriano, ou até pastor que batiza e faz casamento, com toga branca esvoaçante e tudo, dizia ele (ou, pelo menos, era assim que pensava) ele, quem é que vai ousar me negar esse direito? Quem é que vai ter a coragem de me impedir?

A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) pode ter nos botado pra fora, como botou a ele, a mim, e a tantos outros, nos anos 60. Protestantes de outras denominações podem nos renegar. Nem mesmo a minha denominação, a Igreja Presbiteriana Independente do Brasil (IPIB), me deixa viver desengaiolado. Pedi demissão de sua Faculdade de Teologia para não criar problemas para seu diretor, que é meu amigo e a quem quero bem. Mas o Protestantismo não tem Papa, ninguém manda no Protestantismo. Por isso é que há mais de 30 mil denominações protestantes no mundo e apenas uma Igreja Romana, que se pretende Católica e Universal.

Nós, protestantes, temos o direito de pensar livremente e de protestar, quando tentam nos engaiolar. É essa a nossa essência, a de espernear e de gritar: “Protestante sou eu, que continuo a protestar, que estou sempre me reformando, e não vocês que se congelaram numa ortodoxia fria, numa recta doctrina ultrapassada, numa ortodoxia que nunca foi realmente orto, nem mesmo em 1643-1649, e que só se impôs pela força imperial, real ou parlamentar na retaguarda… Enfim, pela espada.

Uma igreja que só se preocupa em caçar, cassar, e, daí, novamente caçar hereges, agora para matar, que se preocupa em processar, expurgar, em manter a área limpa de diferenças e diversidades, vale dizer, de liberdade, essa igreja não é Protestante: é Católica. Protestante, antes do seu tempo, foram Arius, Nestorius e Pelagius. Protestante foi Michel Servetus e Sebastião Castélio. Não foram protestantes Constantino, Teodósio, Agostinho, João Calvino e Teodoro Beza. Eles eram a autoridade no poder. E autoritários, no meu livro, são os católicos. São eles que constrangem os divergentes a se curvar, como fizeram com o coitado do Leonardo Boff: impõem a ele um vergonhoso “silêncio obsequioso”. Pior do que proibir um pessoa de falar é constrangê-la a, voluntariamente, se calar e permanecer quieta, de “livre e expontânea” vontade. Além de coitado, Boff é um babaca por ter aceito ficar quieto.

Vocês, os autoritários de hoje, são os equivalentes do Papa Leão X de ontem. Nós somos o Lutero Jovem (mas não queremos, como ele, que, assim que ficou mais velho, e ganhou poder, virou um leãozinho a perseguir os seus hereges, fazer a mesma coisa que ele). Nós somos aquele Lutero que, diante do Imperador Carlos V e de representantes do Papa, teve a coragem e a ousadia de dizer: Hier stehe ich: ich kann nichts anders. Aqui eu fico, daqui ninguém me tira. É isso que o Rubem Alves significa. Ele foi a primícia dos renegados. A primícias daqueles que ousaram dizer: Aqui eu estou, aqui eu fico, daqui ninguém me tira. Tentem para vocês verem…

O sonho do Rubem, e o meu, era ser professor no Seminário de Campinas: ele, de Teologia Sistemática, eu, de História da Igreja. Imaginamos algumas vezes, tomando um Jack Daniels, como teria sido divertido… A Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB) nos expurgou, a nós dois e a tantos outros que poderiam ter ajudado a igreja a formar um exército de novas e brilhantes lideranças. Se apenas ela não tivesse a pretensão de ser uma igrejinha católica de menos de um milhão de membros… Mas, ao nos expurgar, a IPB, sem saber, acabou por nos dar uma audiência bem maior do que uma classe de 20 alunos no Seminário de Campinas.

Este blog vai tentar ampliar essa audiência ainda mais. Inclusive entre os alunos dos Seminários Presbiterianos. A real educação não se faz mais em sala de aula convencional. Faz-se aqui, nas redes do espaço virtual.

Quem ganhou a guerra no Ocidente não foi o reformador Lutero que criou a sua ortodoxia e se tornou perseguidor de hereges, como, em sua visão estreita, eram Karlstadt, Servetus e tantos outros. Quem ganhou a guerra no Ocidente foi Erasmo, o pacífico humanista, e o primeiro teólogo liberal. (O último foi Bultmann). Depois, trevas.

Não acredito em determinismo histórico, mas acredito na força e na atração que a liberdade exerce e continuará a exercer sobre mentes fortes e criativas. Alea jacta est. “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”.

Salto, 1 de Janeiro de 2020